Uma das tendências mais comuns no Ocidente, e o Brasil não é exceção, é aquela de associar a caligrafia japonesa a uma coisa “zen”, sempre ligada a meditação, como um exercício espiritual, ou algo de caráter esotérico. Mas isso é apenas uma das caligrafias possíveis – praticada em geral por pessoas ligadas ao zenbudismo, que escrevem os sutras como um exercício espiritual, fazem zazen antes da escrita etc. Essas pessoas, no entanto, são minoria. A grande maioria pratica a caligrafia japonesa como uma arte. Mas , aqui, o significado da caligrafia japonesa como arte adquire sentidos diferentes de pessoa a pessoa.
No período Pós-Guerra a caligrafia japonesa passou por uma fase bastante conturbada no Japão. Alguns calígrafos começaram a questionar a natureza da caligrafia japonesa – mais conhecida como shodô, o caminho da escrita -, porque viam na caligrafia “algo mais”, um meio onde poderiam se expressar, mais do que copiar modelos, aprender técnicas ou ter uma “bela caligrafia”. Foi um tempo bastante rico para a caligrafia . Desenvolveram-se estilos bastante específicos, como o ichijisho, que trabalha com poucos caracteres (em geral um ou dois) e o kindaishi, cuja base são poemas modernos. Mas quem mais levou ao extremo a caligrafia como arte expressiva foram artistas do grupo conhecido como “zen-ei-sho”, ou vanguarda moderna da caligrafia, que chegou a trabalhos completamente abstratos e ilegíveis.
Nem todas essas propostas foram bem recebidas no mundo da caligrafia, gerando visões distintas de caligrafia. Na metade do século XX, havia duas exposições de caligrafia, que representavam essas visões, e que existem até hoje: uma, a do Nitten, com trabalhos mais tradicionais de caligrafia; a outra, patrocinada pelo jornal Mainichi, acolheu os trabalhos vindos da caligrafia moderna, entre eles o zen-ei-sho.
No Brasil, podemos dizer que a caligrafia japonesa tem essas duas tendências, ainda que a maior parte da produção artística seja mais tradicionalista. Em comemoração ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, o Jornal Mainichi fará uma exposição de trabalhos contemporâneos no MASP, em outubro/novembro desse ano. Haverá duas seções: uma de trabalhos que foram expostos nos últimos anos no Japão e outra com uma seleção de 25 obras “históricas” do shodô moderno. Será uma boa oportunidade para ver um tipo de caligrafia ainda pouco conhecido no Brasil.