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Sensei Etsuko Ishikawa fazendo demonstração de sho (caligrafia japonesa moderna/shodo moderno) em São Paulo, 2007.

O caminho da escrita

O “Dô” (Caminho) de Shodô por Morita Shiryu

O calígrafo se preocupa principalmente com o ritmo da linha. É através desse ritmo que a energia da linha é controlada. Enquanto o trabalho está sendo feito, o ritmo minuciosamente penetra os movimentos do corpo/braço/pincel. Torna-se uma base inconsciente interior que o permite escrever com liberdade. A caligrafia não é uma repetição mecânica ou viciada de pinceladas, mas um conjunto que é vivo e que responde aos impulsos criativos do calígrafo no momento.

Christine Flint Sato, no livro “Japanese Calligraphy: The art of line and space”

Sensei Wakamatsu fazendo uma demonstração de caligrafia japonesa. São Paulo, 2006.

o corpo na caligrafia II

Sensei Etsuko Ishikawa fazendo demonstração de sho. São Paulo.

a escrita transcendida

Sho é a escrita dos ideogramas num movimento único, sem retoque. [...] quando o próprio ser emerge com o ideograma e é identificado com o movimento da mão e do corpo, o sho transborda. [...] isto é sho…
Um movimento único e sem volta, que assimila e absorve tudo – ideograma, pincel, papel, espaço – em si mesmo… Quando o movimento, que é a convergência de todas as forças numa única execução vem à tona, e mais, quando ele é transcendido, e eu, ideograma, pincel, papel, forma, ritmo, tempo, espaço, minha mente, enfim, quando tudo foi transcendido, tudo existe como um. Neste momento, nada me segura e eu posso ser eu mesmo.

Morita Shiryu (1912-1998), calígrafo japonês, um dos líderes do zen-ei-sho

o corpo na caligrafia

o corpo na caligrafia japonesa

Assistir a uma demonstração de caligrafia japonesa, hoje cada vez mais comum nos eventos de divulgação da cultura nipônica no Brasil, permite um olhar mais apurado na relação do corpo com a escrita. O corpo avança, retrocede, mergulha; os joelhos semi-dobrados ou dobrados são suporte para os diferentes ritmos e estilos de escrita. Às vezes, o corpo quase se suspende no ar – os pés se alternam como passos de dança e de um ritual. Em outras, o trabalho tranquilo da criação lembra um dia tranquilo de uma praia, graveto à mão, escrevendo sob a areia . Essas metáforas lembram Laban:

Um observadorde uma pessoa em movimento fica imediatamente consciente, não apenas dos percursos e ritmos de movimento, mas também das atmosferas que os percursos carregam em si, já que são tingidas pelos sentimentos e pelas idéias. E o conteúdo dos pensamentos e emoções que tem ao nos movermos ou ao observarmos o movimento podem ser analisados tanto quanto as formas e linhas traçadas no espaço. (Laban citado por Ciane Fernandes, O corpo em movimento, 2002).

A caligrafia japonesa, portanto, extrapola a imagem de algo estático e padronizado, pois sua escrita depende, entre outras coisas, de cada pessoa que a escreve e de sua intenção – ou, porque não dizer, do seu kokoro – coração/mente, em japonês.

foto: sensei Wakamatsu e sensei Ishikawa fazendo demonstração de caligrafia em São Paulo, 2007.

Próximas Exposições

Exposição Nippon – 100 anos de integração Brasil Japão. Uma das seções dessa exposição geral de cultura japonesa tem trabalhos de professores senseis do Japão e do Brasil. Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro. Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Rio de Janeiro. De 27 de maio a 13 de julho de 2008. De terça-feira a domingo, 10h/21h. Entrada Franca.

eventos passados
Exposição de Caligrafia Japonesa no Festival de Cultura Japonesa do Bunkyo – Bunka Matsuri
, maio/2008.

Exposição Artes da Tinta de Carvão, Associação da Província de Ibaraki, maio/2008.

Considerada como uma das artes mais tradicionais do Japão, a caligrafia japonesa é também uma das mais antigas. Os povos japoneses adotaram a escrita dos ideogramas chineses, a partir do século V. d.C., e herdaram, junto, o seu profundo respeito e admiração pela escrita como uma forma de arte.
Em japonês, duas palavras especialmente se referem à caligrafia japonesa com esse viés artístico: sho e shodô. Embora “sho” faça parte do ideograma “shodô”, no contexto atual das artes no Japão, essas palavras se referem a visões distintas da caligrafia japonesa, resultado de uma grande transformação no mundo da caligrafia, principalmente depois da segunda metade do século XX no Japão.

De certa forma, podemos dizer que são dois lados de uma mesma moeda. O que muda é como cada calígrafo encara o ideograma: “shodô” (sho, escrita; dô, caminho), ou “o caminho da escrita”, como se tornou conhecido ao longo dos séculos, diz respeito a uma arte mais tradicional, enquanto “sho” é a arte que lida com os caracteres de forma mais expressiva e autoral. chegando inclusive, na sua forma mais extrema, o zen-ei-sho, a formas abstratas, que em nada lembram o caracter original. Compartilham, no entanto, os mesmos materiais, a preocupação com a linha caligráfica e a reverência aos clássicos para aperfeiçoamento e treinamento. Mas os calígrafos de sho, embora reverenciem os clássicos, não se limitam apenas a eles, expandindo as possibilidades de criação artística da escrita.
No Brasil encontramos exemplos dessas duas correntes, e, em exposições de caligrafia, como a que é promovida anualmente pela Associação Shodô do Brasil, e que conta com a participação de outros grupos, isso fica evidente: trabalhos clássicos de caligrafia dividem espaço com caracteres de extrema força expressiva, às vezes completamente ilegíveis, mesmo para um leitor fluente de japonês.

caligrafias japonesas

Uma das tendências mais comuns no Ocidente, e o Brasil não é exceção, é aquela de associar a caligrafia japonesa a uma coisa “zen”, sempre ligada a meditação, como um exercício espiritual, ou algo de caráter esotérico. Mas isso é apenas uma das caligrafias possíveis – praticada em geral por pessoas ligadas ao zenbudismo, que escrevem os sutras como um exercício espiritual, fazem zazen antes da escrita etc. Essas pessoas, no entanto, são minoria. A grande maioria pratica a caligrafia japonesa como uma arte. Mas , aqui, o significado da caligrafia japonesa como arte adquire sentidos diferentes de pessoa a pessoa.

No período Pós-Guerra a caligrafia japonesa passou por uma fase bastante conturbada no Japão. Alguns calígrafos começaram a questionar a natureza da caligrafia japonesa – mais conhecida como shodô, o caminho da escrita -, porque viam na caligrafia “algo mais”, um meio onde poderiam se expressar, mais do que copiar modelos, aprender técnicas ou ter uma “bela caligrafia”. Foi um tempo bastante rico para a caligrafia . Desenvolveram-se estilos bastante específicos, como o ichijisho, que trabalha com poucos caracteres (em geral um ou dois) e o kindaishi, cuja base são poemas modernos. Mas quem mais levou ao extremo a caligrafia como arte expressiva foram artistas do grupo conhecido como “zen-ei-sho”, ou vanguarda moderna da caligrafia, que chegou a trabalhos completamente abstratos e ilegíveis.

Nem todas essas propostas foram bem recebidas no mundo da caligrafia, gerando visões distintas de caligrafia. Na metade do século XX, havia duas exposições de caligrafia, que representavam essas visões, e que existem até hoje: uma, a do Nitten, com trabalhos mais tradicionais de caligrafia; a outra, patrocinada pelo jornal Mainichi, acolheu os trabalhos vindos da caligrafia moderna, entre eles o zen-ei-sho.

No Brasil, podemos dizer que a caligrafia japonesa tem essas duas tendências, ainda que a maior parte da produção artística seja mais tradicionalista. Em comemoração ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, o Jornal Mainichi fará uma exposição de trabalhos contemporâneos no MASP, em outubro/novembro desse ano. Haverá duas seções: uma de trabalhos que foram expostos nos últimos anos no Japão e outra com uma seleção de 25 obras “históricas” do shodô moderno. Será uma boa oportunidade para ver um tipo de caligrafia ainda pouco conhecido no Brasil.